TÁCITO ou Gaius?
O jornalista Namy Chequer (diariamente à frente do programa Ponto de Vista – Rádio Universitária) é uma pessoa muito perspicaz e altamente informada. E mesmo quando se trata de uma casualidade, ainda que involuntariamente, a sua perspicácia fala mais alto. Hoje ele me apresentou um professor da Ufes (universidade onde leciono) que considera irrelevante duas características básicas do saber formal, oferecido nas escolas: saber ler e saber escrever corretamente. O conhecimento e o completo domínio do código da escrita.
O jovem professor não professa o seu ponto de vista com reservas, intra murus. Ele o faz publicamente, com inequívoco orgulho. Para este o importante é ser “um bom pesquisador”, “um bom articulador”.
Tive a oportunidade de lembrar ao já notório colega a ocasião em que, negando declaração minha, declaração pública, dissera que cometer erros ortográficos e gramaticais é coisa insignificante. Coisa que se resolve com a “contratação de um revisor”. Além da oportunidade de reafirmar seu ponto de vista, o notável professor acrescentou: “Não é preciso saber escrever corretamente para entrar na Universidade. O importante é abrir a Universidade para todos, é acabar com a evasão. Se um aluno não sabe escrever eu vou reprovar ele? Você vai reprovar ele?”
Bom, eu redargüi (lembro aqui que até 2012 posso usar o trema): “Sim, professor. Se ele não soubesse eu iria reprová-lo.”
A saudável conversa esteve à beira de tornar-se empolgante, durou cerca de meia hora e eu precisei pedir licença, não sem antes repetir que numa Escola (qualquer que seja ela e especialmente a Universidade) prevalece o saber formal e o admirável colega perguntar se eu não conheço, por acaso, Saramago e a forma como ele escreve. Ressaltei algumas peculiaridades da literatura, inclusive a literatura de cordel (não que eu considere Saramago um cordelista, por favor!) e a liberdade que tem um literato para criar e usar a linguagem que lhe aprouver. O distinto professor ressaltou que o importante é a comunicação. Ressaltou mais: o ser humano precisa se comunicar, saber escrever corretamente é secundário e desnecessário. Lembrou que o que se ensina na Universidade é uma decisão política. E que pensando como penso, sou elitista e considero a Universidade elitista. E não é que o admirável professor quase acertou? Para mim a Universidade reúne a elite do conhecimento. O professor nega. Talvez eu esteja – no tocante a isto – mesmo errada.
Tive que anuir: é um fato. Mas completei dizendo que as decisões políticas de hoje, que determinam como deve ser a Escola, a Universidade, não são as ideais.
Apesar de correr o risco de provocar enfado e não ser compreendida, lembrei que também é de meu conhecimento que as ideologias que num determinado momento são hegemônicas, em outros não o são. Esclareci que respeito as individualidades. Todas. A tal ponto que compreendo a predominância de idéias contrárias às minhas. Com uma ressalva. Deixo claro o que penso.
Voltando ao jornalista – e vereador – e ao título deste pequeno texto: Chequer aparteou citando Tácito.
- O filósofo Tácito – informou Chequer – já disse que as maiorias chegam ao poder não porque sejam mais fortes, mas porque quem pensa diferente se omite.
Oportuna lembrança. Inclusive o historiador romano (e questor, pretor, cônsul, procônsul e orador) Caius Cornelius Tacitus poderia ser conhecido como Tacito, O Conciso. Seu texto é absolutamente enxuto.
Foi uma boa chamada para uma conversa que se alongava mais que o necessário, já que estávamos na hora do almoço.
Mas talvez o que Chequer pretendesse lembrar, tacitamente, é que Tacitus, em latim, significa silencioso. Que cala.
Como num acordo tácito (acordo subentendido), pedi licença para comparecer a um outro compromisso.
PS1: Não tive oportunidade de dizer – tanto a ser ouvido e ser contestado… – que se o fundamental é ‘se comunicar’, sem necessidade de, para tanto, usar o saber formal… o que alguns buscam na Universidade?
PS2: Falando em escritores, entre o português Saramago e o brasileiro Graciliano Ramos, fico com Graciliano. Não tenho dúvida em considerá-lo de maior estatura.
PS3: O conhecimento tácito ajuda, é importante. Esse conhecimento espontâneo não é o que a Universidade oferece. Ela o valoriza na medida em que contribua para a disseminação do conhecimento sistematizado. No entanto, do jeito que as coisas andam, como também lembrei, em menos tempo que possamos prever o ser humano estará de novo se comunicando sem palavras, como alguns milhares de anos atrás. Coisa de 150, 200 mil anos atrás…
PS4: O programa de Namy Chequer está entre os de maior audiência, no Espírito Santo. Namy é um amigo que tenho em alta conta. Como tenho em alta conta um grande professor de História, ex-jornalista, José Tristão Fernandes, que é seu tio.
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Você está lendo “TÁCITO ou Gaius?,” uma entrada em Sandra Medeiros
- Published:
- terça-feira, 19 abril, 2011 / 21:57
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