O Jornalismo e o Design perdem um mestre

Fiquei sabendo, tardiamente, que o artista gráfico Tide Hellmeister não resistiu a um enfisema e a uma cirurgia no coração e deixou a nossa convivência no último dia 31. Não é mais notícia, mas o fato tem alcance, afeta o jornalismo, as artes gráficas, o design, a arte: ficou um espaço que não se preenche. Perdemos um profissional dos mais sérios, criativos, realizadores. Não são poucos os projetos pioneiros de Tide e aqueles que conhecem a sua história sabem disso: de autor do importante Técnica Tipográfica à coluna Significado do significado (no Diário Popular) Tide fez de tudo e um pouco mais. Querido e admirado no meio editorial e gráfico, ele foi um dos criadores da Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo, a notória ECA-USP; da Cásper Líbero; da Escola Superior de Propaganda e Marketing.

Biólogo que era, dirigiu a Faculdade de Ciência da Santa Casa de São Paulo. Psicolingüista, ele é autor de O Culto Idioma. Marcaram o jornalismo brasileiro as belas ilustrações que fez, durante anos, para a página do jornalista Paulo Francis, Diário da Corte, nos jornais O Estado de São Paulo e O Globo. Sua caligrafia rara marcou a ilustração editorial e mostra a fineza do seu trabalho.

Tide começou menino, aos 17 anos, na TV Excelsior e deu um show de talento por onde passou, desde a pequena Editora Masao Ono. Autodidata e discípulo reconhecido, de rara estirpe, não esquecia o primeiro mestre, Cyro del Nero, a quem sempre rendia homenagens. Tide ultimamente era mais conhecido pelas colagens: muitas de impacto pop, como os coloridos alfabetos que encantaram jovens designers pelo país inteiro. Outras, sofisticadas e barrocas, como a deslumbrante série em preto e branco que expôs no auditório da Rede Gazeta, na segunda noite do Seminário Nacional de Ilustração e Design Editorial, organizado, em novembro agora, pela Célula Tipográfica. Colagens planas, tridimensionais, em todos os formatos, e quase todas elas com um elemento caligráfico. Um mestre, Tide sempre demonstrou a união indissociável entre caligrafia, tipografia, edição e arte.

Reconhecido, admirado, Tide foi sufocado pelo computador, com seus programas de soluções padronizadas que tão bem produzem a mediocridade. Seu estúdio, que chegou a empregar 20 profissionais, estava praticamente reduzido a ele e um assistente.

Em 2006 o Museu da Casa Brasileira e a Infolio Editorial o homenagearam lançando Tide Hellmeister, inquieta colagem. São 144 páginas com 200 trabalhos do paulista do Pacaembu, um artista justamente reconhecido no Brasil e fora do país. Um livro raro.

Difícil enumerar tudo que ele fez… Tive o privilégio de compartilhar alguns bons momentos com Tide, por telefone e durante sua vinda a  Vitória, mas não tive a sensibilidade de procurá-lo mais, depois que retornou para São Paulo, embora desde então me surpreendesse, em muitos momentos, preocupada com ele: como sempre acontece, cedi ao trabalho e aos compromissos imediatos, e fiquei adiando o “preciso ligar para ver se o Tide melhorou”. Não esqueço dos minutos em que, no saguão do Alice Vitória Hotel, conversávamos enquanto ele esperava a hora de ir para o aeroporto. Respirava mal, como na noite anterior, quando mal conseguia andar, embora se negasse a largar o cigarro. Reclamou muito pelo meu atraso. Involuntário. Não faria esperar o grande tipógrafo que recortava das páginas do Estadão. Pelo telefone ele havia advertido: “Você vai se arrepender se não vier me ver”. Brincava porque temia – me disse – parecer uma pessoa enjoada ou esnobe. Estava muito apreensivo, falou dos exames programados para o sábado seguinte, reclamou, repetiu, enfatizou que não estava bem, mas foi com entusiasmo que me mostrou novos trabalhos que eu não conhecia e reforçou o convite para que fosse visitar seu ateliê, em São Paulo. Vaidoso e orgulhoso do que fazia, disse que eu iria ficar encantada. Combinamos que iria em fevereiro. Não deu. Como lamento!

(PS: Iria gravar em vídeo o depoimento de Tide para a série de documentários sobre design que estou realizando. Já está gravado o de Felipe Taborda.)


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